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domingo, 22 de março de 2009

CHICO XAVIER TEMIA PUBLICAR "NOSSO LAR"

Francisco Cândido Xavier psicografou 436 livros em 75 anos e um deles, "Nosso Lar", lançado em 1943 e que já vendeu quase dois milhões de exemplares, o preocupou antes de editado. Seu autor espiritual se apresentava apenas como André Luiz, médico em reencarnação no Brasil. O jornalista Marcel Souto Maior, no seu livro-reportagem As Vidas de Chico Xavier, comenta : “O texto pegou o mineiro de surpresa. Era diferente de tudo o que ele já tinha escrito. Descrevia o cotidiano numa cidade espiritual próximo à Terra, uma zona de transição fundada por portugueses em algum ponto do espaço, mais perto do Sol do que da Terra, no século 16. Era para ali, ou para comunidades parecidas com aquela, que muita gente ia após a morte. Nada de céu, de inferno, de purgatório. A população, formada por cerca de um milhão de habitantes, vivia às voltas com uma burocracia tão intrincada quanto à terráquea. Os moradores de 'Nosso Lar' se submetiam a regras ditadas por estâncias como a Governadoria Geral e os ministérios da Regeneração, do Esclarecimento e da Elevação".

Marcel considera "Nosso Lar" um marco para o Espiritismo. Convenceu muita gente da necessidade de trabalhar pelos necessitados. Quem se dedicasse à caridade evoluiria mais depressa. Quem ajudasse o outro se ajudaria. Ele conta que Chico Xavier tremeu ao traduzir aquelas lições do outro mundo. Escutava as frases e vacilava com o lápis na mão, perplexo diante do mundo novo. Numa das noites de trabalho, se sentiu fora do corpo e, durante duas horas, ao lado de André Luiz e de Emmanuel, seu instrutor espiritual, visitou uma faixa suburbana da cidade insólita que lhe era descrita. A viagem, uma das maiores surpresas de sua vida, não ocorreu por merecimento, mas por necessidade: só assim ele conseguiria passar para o papel, sem trair a realidade, o clima descrito por André Luiz.

Quando a obra foi publicada, obviamente choveram as críticas. Emmanuel não permitiu que o médium se ofendesse ou as refutasse: "Chico, ressentimento é vaidade. Você não pode exigir que os outros acreditem naquilo em que você acredita. Ninguém está obrigado a seguir a sua cartilha". Décimo nono livro do médium, da série André Luiz vieram depois: Os Mensageiros, Missionários da Luz, Obreiros da Vida Eterna, No Mundo Maior, Agenda Cristã, Libertação, Entre a Terra e o Céu, Nos Domínios da Mediunidade, Ação e Reação, Evolução em Dois Mundos, Mecanismos da Mediunidade, Conduta Espírita, Sexo e Destino, Desobsessão e A Vida Continua...

O filósofo Huberto Rohden chama a atenção para o fato do homem acreditar, mesmo quando afirma só crer naquilo que vê: “Tenho de crer em quase todas as teses e hipóteses da ciência, porque ultrapassam os horizontes da minha capacidade de compreensão.” No final da década de 80, a revista Crescer, da Editora Globo, trazia em suas páginas genial mensagem, simulando uma chapa radiográfica do interior do ventre materno, onde dois fetos, gêmeos, conversavam. Dizia o primeiro:

– Você acredita em vida após o parto?
O segundo respondia:
– Não sei. Nunca ninguém voltou para contar...
Jávier Godinho
A partir do site
Diário da Manhã. Leia texto integral

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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

LIVRO ESPÍRITA : BEST-SELLERS DO ALÉM


Com vendas estratosféricas, e mais de cem milhões de exemplares publicados, os livros espíritas são um fenômeno editorial que cresce a cada dia. Qual o segredo desse sucesso?

Por Luana Villac
Edição: Lauro Henriques Jr.

Quem é o escritor francês mais lido no Brasil? Se você pensou em nomes como Émile Zola, Jean Paul Sartre ou Victor Hugo, esqueça. O título pertence ao pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec. Com 11 milhões de exemplares vendidos no país, o codificador da doutrina espírita deixa seus compatriotas clássicos no chinelo.

Aliás, quando se trata de literatura espírita, os superlativos não se limitam a Kardec. De acordo com o levantamento mais recente da Associação de Editoras, Distribuidoras e Divulgadoras do Livro Espírita (Adeler), as obras do médium Francisco Cândido Xavier já ultrapassaram os 20 milhões de exemplares vendidos. Só o seu primeiro livro, Nosso Lar, de 1944, já vendeu 1 milhão e 648 mil unidades em língua portuguesa. Outros autores contemporâneos, como Divaldo Franco, Vera Lucia Marinzeck Carvalho e Zibia Gasparetto, ostentam números igualmente impressionantes, com vendas superiores a 4 milhões de livros cada um. Para se ter uma idéia da dimensão do feito, uma obra que consiga chegar às mãos de cinco mil leitores já é considerada bem-sucedida no Brasil. Ou seja, o etéreo “lado de lá” é um fenômeno literário incontestavelmente sólido do lado de cá. Sólido, e a cada dia maior.

A crescente demanda, aliada à profissionalização do setor, resultaram em uma enorme expansão do mercado editorial dedicado ao segmento nos últimos dez anos. Hoje há 120 editoras espíritas em atividade, pelo menos mil autores especializados e somam-se mais de 130 milhões de obras editadas no Brasil, que vão desde romances e textos filosóficos até peças de teatro e livros infantis.

Escritores espirituosos

A grande maioria das obras relacionadas ao Espiritismo é psicografada, ou seja, tem sua autoria atribuída a espíritos que as escreveriam por meio de um médium. É o caso, por exemplo, do best-seller Violetas na Janela (Ed. Petit), que teria sido ditado à Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho pelo espírito de uma jovem chamada Patrícia. Nesse sentido, muitos se perguntam até que ponto o autor “terreno” participaria ou não da produção da obra.

De acordo com Allan Kardec, a psicografia pode se dar de forma consciente, semimecânica ou mecânica, dependendo do grau de consciência do médium durante o processo. No primeiro caso, o médium teria plena noção daquilo que escreve, apesar de não reconhecer em si a autoria das idéias contidas no texto. Assim, teria a capacidade de influir nos escritos. Para evitar essa interferência terrena, os médiuns têm que passar por longos anos de prática. “Quando psicografo não interfiro. Escrevo apenas o que me é ditado”, afirma Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho. “Mas foi só com muito treino e estudo que aprendi a distinguir essa diferença e ser uma intermediária fiel.”

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LIVRO ESPÍRITA : LITERATURA OU ENSINAMENTO

Ainda segundo Kardec, na psicografia semimecânica, o médium pode até estar consciente do fenômeno e perceber o influxo de idéias, mas seria incapaz de influenciar no texto, que basicamente lhe escorre das mãos. A escritora Zibia Gasparetto afirma se enquadrar nesse caso. “Durante meu transe, fico consciente, mas não percebo o que está acontecendo em volta. Fico totalmente concentrada na escuta da história: eles ditam muito rápido”, diz Zibia.

Já a psicografia mecânica é explicada pelo codificador da doutrina como aquela em que o médium escreveria sem sequer se dar conta do que está fazendo, incluindo-se aí a possibilidade de conversar com outras pessoas sobre determinado tema enquanto psicografa um texto completamente alheio ao assunto em pauta. Nesse caso, os médiuns permitiriam ao espírito agir diretamente sobre sua mão ou seu braço, sem recorrer à mente. Essa escrita era considerada preciosa por Kardec, por afastar dúvidas sobre o teor da mensagem. Os livros de Chico Xavier teriam sido psicografados dessa forma.

Em muitos casos, a parceria entre médiuns e espíritos é duradoura e muito prolífica. Os 48 livros de Vera Lúcia, por exemplo, teriam sido orientados por uma entidade que atende pelo nome de Antônio Carlos. “Mesmo quando psicografo com outro escritor, ele está sempre presente”, conta. “Devo muito a esse companheiro de tarefa”. Divaldo Franco atribui 56 de suas obras ao espírito Joanna de Angelis, que considera sua mentora espiritual.

Estilo polêmico

Até mesmo baluartes da literatura, já falecidos, podem ser encontrados no catálogo de autores das editoras espíritas. A lista de escritores que ditariam suas obras do além é tão vasta quanto eclética, incluindo figurões como Victor Hugo, Voltaire, Bocage, Dante, Goethe, Tolstoi, Castro Alves, Augusto dos Anjos e Olavo Bilac (veja matéria no volume 2, página 70). Esse ponto, contudo, é o que mais polêmico entre a comunidade não-espírita, sobretudo entre os profissionais do mercado literário “deste mundo”.

Para muitos críticos, a baixa qualidade, segundo eles, da suposta produção desses espíritos ilustres – que, em vida, deixaram apenas obras primorosas – atestaria que tudo não passa de auto-sugestão, quando não de pura fraude. “O Espiritismo é uma religião que tem uma forte tradição escrita, o que necessariamente não se reflete numa tradição literária”, afirma Paulo Werneck, um dos responsáveis pela triagem das obras publicadas pela editora Cosac Naify.

A bem-humorada opinião do crítico fluminense Agripino Grieco resume o ponto de vista da crítica literária brasileira a respeito do assunto. Grieco costumava dizer que a psicografia era a prova cabal de que a morte faz muito mal ao estilo de um autor.Embora não tenham explicações para esse possível fenômeno de putrefação do estilo após a morte, a maioria dos autores espíritas afirma que esta seria uma discussão irrelevante, fruto apenas da descrença. "O que a crítica diz dos livros que recebi não me preocupa, pois o público sabe que essas obras são poderosos agentes de transformação. Recebo centenas de mensagens de pessoas me dizendo que determinado livro mudou sua vida porque as ajudou a pensar diferente", afirma Zibia Gasparetto.

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LIVRO ESPÍRITA : SUCESSO ASSOMBROSO


Polêmicas à parte, a literatura espírita caiu no gosto popular e conquistou definitivamente seu lugar ao sol. “Antigamente havia certa resistência às obras espíritas nos pontos de venda, mas, de alguns anos para cá, elas vêm ganhando espaço de destaque na exposição em muitas livrarias”, afirma Ary Dourado, presidente da Adeler. Mas o que estaria por trás desse vigor impressionante?

O fator socioeconômico pode ser um dos elementos. Segundo o último censo do IBGE, de 2000, o Brasil conta hoje com 2,3 milhões de espíritas. É um público letrado, adulto (média de 35 anos) e, em geral, com boa situação financeira. Entre as religiões com maior número de fiéis, como católicos e evangélicos, os adeptos do Espiritismo apresentaram os melhores indicadores, tanto de escolaridade (98,1% são alfabetizados), como de rendimento: 8,4% deles ganhavam mais de 20 salários mínimos quando foi realizado o censo, enquanto entre o total da população esse número foi de apenas 2,7%.

O forte sincretismo religioso no Brasil seria outro elemento. De fato, quando o assunto é vendagem de livro, o Espiritismo extrapola as fronteiras de seus seguidores: calcula-se que haja cerca de 30 milhões de simpatizantes da doutrina no país. “O Espiritismo brasileiro apropriou-se positivamente da noção católica de caridade, o que redefiniu seus limites e objetivos, conquistando a simpatia de muitos católicos”, afirma o antropólogo Bernardo Lewgoy, autor do livro O grande mediador – Chico Xavier e a cultura brasileira (Edusc). Para ele, essa capitalização do intercâmbio inter-religioso foi impulsionado sobretudo pelo trabalho de Chico Xavier, a partir dos anos 1940.

E foi justamente por meio da psicografia, ou seja, da literatura, que Chico Xavier encontrou o melhor veículo para propagar suas idéias. De acordo com Lewgoy, com os 412 livros que psicografou, o médium mineiro estabeleceu um conjunto de referências e parâmetros para a escrita espírita no Brasil. A começar pelos direitos autorais, que reverteu integralmente para instituições de caridade, num ato registrado em cartório. Chico costumava dizer que não escrevia nada. “Ele realizou, como nenhum outro médium, o ideal de uma ‘interautoria’, isto é, uma parceria autoral entre psicógrafo e espírito”, diz o antropólogo. Com o caminho aberto pela popularização de suas obras, novos autores foram surgindo e seguindo os passos do mestre.

Para o jornalista e escritor Marcel Souto Maior, autor de uma trilogia sobre Chico Xavier que já vendeu mais de 300 mil exemplares, o Espiritismo atrai leitores à procura de respostas para o processo de crise que o mundo atual vive. “A depressão é o mal do século. E há um ocaso das correntes religiosas tradicionais”, afirma Marcel. No entanto, Souto Maior não vê associação entre a popularização do Espiritismo e o fenômeno dos best-sellers de auto-ajuda. “Esses livros apontam soluções fast-food. O Espiritismo exige mais responsabilidade”, diz.

Chave da esperança
Para muitos, contudo, é no conteúdo esperançoso das mensagens que está a chave do sucesso da literatura espírita. “Creio que esse êxito se deva à necessidade premente que, atualmente, o ser humano tem de encontrar um pouco de paz”, afirma Armando Antongini, diretor executivo da Câmara Brasileira do Livro. “Diariamente, e em toda a mídia, nos deparamos com toda sorte tragédias e violências. O público busca nas obras espíritas, e religiosas em geral, por um caminho que dê alguma esperança ao homem.” Os espíritas concordam com essa visão. “As mais belas notícias que um ser humano pode receber são: a morte não existe, Deus o criou para a perfeição e lhe dá inúmeras chances de evoluir por meio reencarnação”, afirma Sônia Zaghetto, membro da Diretoria de Comunicação da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade). “As obras espíritas trazem mensagens de coragem e fraternidade entre os homens”. Ary Dourado, presidente da Adeler, completa: “São livros que consolam, esclarecem e descortinam ao ser humano o caminho do auto-conhecimento e da evolução moral”, diz. “Eles respondem de forma lógica e racional aos porquês e para quês da vida”.

Diante da variedade de fatores, talvez a melhor resposta para a questão do início da reportagem seja a do motorista paulistano José Carlos Machado Rodrigues, católico praticante e simpatizante do Espiritismo. Quando perguntado porque gosta dos livros espíritas, respondeu com simplicidade: “é que eles explicam melhor o que a gente quer saber”.

Texto publicado no Especial
"150 anos do Espiritismo" Volume 1 (pág. 60),
do Almanque Abril, da Editora Abril.

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NÚMEROS DE ESPANTAR


Há 120 editoras espíritas no Brasil

130 milhões de livros
espíritas já foram editados até hoje


Os livros
de Chico Xavier venderam mais de 20 milhões de exemplares
.

As obras de Allan Kardec bateram a marca dos 11
milhões de unidades vendidas
.


Nosso Lar, de Chico Xavier, é a obra
psicografada mais vendida
no Brasil. Só em língua portuguesa, já ultrapassou
1.648.000 de exemplares
vendidos.



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